El Niño sem Pânico: o que a ciência realmente nos diz sobre os impactos climáticos

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Artigo por Willians Bini.

Se você acompanha as notícias sobre o clima ultimamente, é muito provável que já tenha se deparado com manchetes alarmantes sobre a chegada de um “Super El Niño”. Nas últimas semanas, aqui na METOS®, temos recebido uma enxurrada de questionamentos: “As chuvas vão inundar toda a nossa região?”, “Teremos perdas agrícolas por causa da seca?”, “Os desastres naturais serão inevitáveis?”

Vamos começar com a verdade nua e crua: sim, estamos diante de um evento forte. Os dados oceânicos apontam que este pode vir a ser o El Niño mais intenso do século XXI. No entanto, é hora de respirar fundo.

Na meteorologia, nós prezamos pelo realismo e pela base científica, passando longe do sensacionalismo. E o que a ciência de ponta nos diz hoje é muito claro: um El Niño extremamente forte não é garantia de catástrofes climáticas extremas em todas as regiões. A relação entre o aquecimento do oceano e o clima na sua cidade ou na sua fazenda não é uma linha reta. Vamos entender o porquê?

O que a mídia chama de “Super”, a ciência chama de “Muito Forte”

Primeiro, precisamos alinhar os termos. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA), principal referência mundial no assunto, não utiliza o termo “Super El Niño”. Essa é uma criação midiática desenhada para gerar cliques.

A classificação oficial é feita pelo Índice Niño Oceânico (ONI), que mede o quanto a água do Oceano Pacífico Equatorial está mais quente que o normal:

  • +0,5°C a +0,9°C: El Niño Fraco
  • +1,0°C a +1,4°C: El Niño Moderado
  • +1,5°C a +1,9°C: El Niño Forte
  • Acima de +2,0°C: El Niño Muito Forte

O teto da ciência acaba no “Muito Forte”. Mas por que um aquecimento, digamos, de +2,5°C ou +3,0°C não causa o dobro de destruição de um evento de +1,5°C?

A Matemática da Natureza não é Linear

O senso comum nos leva a crer que se um termômetro sobe, a chuva (ou a seca) deve aumentar na exata mesma proporção. Mas a atmosfera terrestre não funciona como uma calculadora simples. Ela responde à chamada não linearidade.

Funciona assim: quando as águas do Pacífico aquecem anormalmente, a atmosfera responde mudando a circulação geral dos ventos em todo o planeta. É como se a natureza alterasse um imenso “motor” climático.

Porém, esse sistema não acelera para sempre. A partir do momento em que esse motor atinge uma capacidade muito alta, continuar aquecendo a água do mar não gera impactos infinitamente maiores e proporcionais. A atmosfera sofre um processo de saturação. Como demonstrado em pesquisas recentes lideradas por cientistas como Jake W. Casselman (2021) e corroborado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), aumentos drásticos na temperatura do mar deixam de causar aumentos proporcionais nos impactos climáticos ao redor do globo.

Em vez de apenas “chover mais”, o que acontece em eventos extremos é uma desorganização geográfica. As zonas de chuva mudam de lugar, gerando anomalias e, muitas vezes, cancelando os efeitos catastróficos que eram esperados para certas regiões.

A Lição do El Niño “Godzilla” (2015-2016)

Para provar que a intensidade do oceano não dita o futuro sozinha, basta olharmos para o passado recente.

Entre 2015 e 2016, vivemos um El Niño monumental, cujas anomalias ultrapassaram os +2,5°C. A mídia o apelidou de “El Niño Godzilla”. Baseados no histórico de eventos fortes anteriores (como 1997/1998), as previsões cravavam que a Califórnia, que sofria com uma seca severa, seria lavada por tempestades apocalípticas.

Qual foi o resultado? O inverno californiano foi inacreditavelmente seco. A seca continuou, a despeito do Oceano Pacífico Equatorial estar bem mais quente.

Por que as previsões falharam? Porque esqueceram do ruído atmosférico (a variabilidade interna da atmosfera). Padrões de ventos e massas de ar independentes do El Niño bloquearam as tempestades. Como aponta um estudo de Wang et al. (2017) sobre o mesmo período na Ásia, um El Niño forte não resulta necessariamente em eventos extremos absolutos se as condições regionais não colaborarem. O clima global é uma orquestra, e o Pacífico é apenas um dos instrumentos.

Deslizamentos, Tornados e o Fator Local

É comum vermos a atribuição de deslizamentos de terra ou surtos de tornados diretamente ao “Super El Niño”. Estudos climatológicos para a América do Sul, como os conduzidos pelas pesquisadoras Alice M. Grimm e Renata G. Tedeschi (2009), mostram que a realidade é muito mais complexa.

O El Niño pode alterar o “palco” climático, mudando as correntes de jato de lugar. No entanto, um tornado dura minutos, um deslizamento ocorre após algumas horas de chuva concentrada em uma encosta específica. Esses eventos de microescala dependem da topografia, do tipo de solo e de instabilidades diárias. O El Niño apenas “joga os dados”, mas o resultado final é altamente localizado, e o microclima local tem um papel fundamental.

O impacto do Aquecimento Global

Aqui cabe uma ressalva crítica e realista: não podemos ignorar que nosso planeta está mais quente. A lei da termodinâmica (Clausius-Clapeyron) diz que uma atmosfera mais quente consegue reter muito mais vapor de água.

O aquecimento global atua como um amplificador. Os impactos que sentimos não são apenas fruto de um “Super El Niño”, mas sim de um El Niño muito forte atuando sobre um planeta febril.

Conclusão: Monitoramento com Responsabilidade

Não estamos minimizando o cenário. O evento que se desenha exige atenção, preparo governamental, planejamento agrícola e muito monitoramento. A variabilidade pode trazer desafios pesados, como já vimos na severidade das secas amazônicas ou nas enchentes do centro-sul.

Contudo, cravar certezas absolutas de destruição com base apenas na temperatura do Pacífico é um erro científico. Pode ser o El Niño mais forte do século, mas os oceanos Atlântico e Índico também terão voz ativa, assim como o fluxo caótico e natural da nossa atmosfera.

No Blog da METOS®, nosso compromisso é com você e com a ciência. Troque o pânico pelo conhecimento e conte conosco para um monitoramento climático contínuo, preciso e, acima de tudo, realista.

 

Referências Bibliográficas

  • CAI, W. et al. Climate impacts of the El Niño–Southern Oscillation on South America. Nature Reviews Earth & Environment, v. 1, n. 4, p. 215–231, 2020.
  • CASSELMAN, J. W.; TASCHETTO, A. S.; DOMEISEN, D. I. V. Nonlinearity in the Pathway of El Niño–Southern Oscillation to the Tropical North Atlantic. Journal of Climate, v. 34, n. 18, p. 7277–7296, 2021.
  • GRIMM, A. M.; TEDESCHI, R. G. ENSO and Extreme Rainfall Events in South America. Journal of Climate, v. 22, n. 7, p. 1589-1616, 2009.
  • INTERGOVERNMENTAL PANEL ON CLIMATE CHANGE (IPCC). Climate Change 2021: The Physical Science Basis. Contribution of Working Group I to the Sixth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change. Cambridge: Cambridge University Press, 2021.
  • NATIONAL OCEANIC AND ATMOSPHERIC ADMINISTRATION (NOAA). Climate Prediction Center. Oceanic Niño Index (ONI). Silver Spring: NOAA/CPC, 2026.
  • WANG, S.; YUAN, X.; LI, Y. Does a Strong El Niño Imply a Higher Predictability of Extreme Drought? Scientific Reports, v. 7, n. 1, p. 40741, 2017.

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