Como o clima influencia a produção e os preços da cana-de-açúcar.

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artigo por Willians Bini

Como o clima influencia a produção e o mercado.

A confirmação de um novo episódio de El Niño recoloca uma discussão que acompanho há alguns anos: de que forma os fenômenos climáticos influenciam não apenas a produção de cana-de-açúcar, mas também o comportamento do mercado sucroenergético.

Durante meu MBA em Agronegócios pela USP/Esalq, dediquei meu Trabalho de Conclusão de Curso justamente a esse tema. Analisei dados entre 2005 e 2024 para entender como El Niño, La Niña e períodos de neutralidade climática se relacionam com a produtividade da cana e com os preços da cana, do etanol anidro e do etanol hidratado.

Agora, com a NOAA oficializando um novo episódio de El Niño em junho de 2026, muitas das questões levantadas naquela pesquisa voltam a ganhar importância para quem produz, processa ou acompanha o mercado.

O clima como variável econômica na cadeia sucroenergética

Os impactos do clima não se limitam ao desempenho da lavoura. Toda a cadeia sucroenergética responde às condições meteorológicas observadas ao longo da safra.

A disponibilidade de água influencia o crescimento da cultura, enquanto períodos chuvosos ou secos também afetam as operações de campo, a eficiência industrial e a logística de transporte da matéria-prima. Essas mudanças acabam refletindo na oferta de produtos e, consequentemente, na formação dos preços.

Por esse motivo, acompanhar fenômenos climáticos deixou de ser uma atividade restrita às equipes de meteorologia. Hoje, essa informação faz parte do planejamento operacional e estratégico de produtores, usinas e agentes do mercado.

O que acontece com a cana durante El Niño e La Niña?

A cana-de-açúcar depende do equilíbrio entre chuva, temperatura e condições adequadas para as operações de campo.

Em anos com maior disponibilidade hídrica, o desenvolvimento vegetativo costuma ser favorecido. No entanto, o excesso de chuva também pode criar dificuldades operacionais. Solos encharcados limitam a entrada de máquinas, aumentam interrupções na colheita e podem comprometer indicadores importantes, como os Açúcares Totais Recuperáveis (ATR).

Já em períodos de déficit hídrico, a maturação da planta pode ser acelerada, mas a redução do crescimento vegetativo tende a diminuir a produção total de biomassa e a disponibilidade de matéria-prima para a indústria.

Na prática, isso significa que nem sempre mais chuva representa uma safra melhor, assim como períodos secos nem sempre resultam em maior eficiência produtiva. O efeito depende da intensidade, da duração e do momento em que essas condições ocorrem ao longo do ciclo da cultura.

O que a análise histórica mostrou

Os dados analisados entre 2005 e 2024 indicam que a relação entre clima, produtividade e preços é mais complexa do que uma simples associação entre anos chuvosos e anos secos.

Durante os períodos de La Niña, houve maior frequência de cenários com restrição hídrica e preços mais elevados para a cana e para os combustíveis. Já nos episódios de El Niño, observou-se maior ocorrência de preços mais baixos.

A produtividade, por outro lado, não apresentou uma resposta linear aos fenômenos climáticos. Isso mostra que os impactos do clima não dependem apenas das condições meteorológicas, mas também de fatores como manejo, variedade cultivada, tecnologia empregada e características regionais.

Outro comportamento identificado foi durante os anos de neutralidade climática. Nesses períodos, tanto a produtividade quanto os preços apresentaram menor volatilidade, indicando um ambiente mais previsível para toda a cadeia produtiva.

O cenário para a safra 2026/27

A safra 2026/27 começa em condições diferentes da temporada anterior.

Depois de um ciclo marcado por forte estresse hídrico e redução da produtividade, as projeções indicam recuperação da moagem no Centro-Sul, estimada entre 642,2 e 648,3 milhões de toneladas. Considerando todas as regiões produtoras, o processamento nacional pode se aproximar de 700 milhões de toneladas.

Ao mesmo tempo, a expansão da produção de etanol de milho continua ampliando a oferta de biocombustíveis no mercado brasileiro, contribuindo para um cenário de abastecimento mais confortável do que o observado em 2025/26.

Entretanto, a confirmação do El Niño adiciona um novo fator de atenção. Caso o fenômeno evolua conforme indicam os modelos climáticos, existe a possibilidade de aumento na frequência de eventos de chuva durante fases importantes da safra, exigindo maior atenção ao planejamento das operações de colheita, transporte e processamento industrial.

Clima também influencia o mercado

Os efeitos das condições meteorológicas vão além da produção agrícola.

Quando a oferta de matéria-prima é afetada, toda a cadeia responde. Alterações na produtividade influenciam o volume processado pelas usinas, a disponibilidade de açúcar e etanol, a formação de estoques e o comportamento dos preços.

Além disso, decisões regulatórias também passam a fazer parte dessa equação.

A ampliação da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina, com a evolução para o E32, tende a aumentar a demanda pelo biocombustível. As estimativas apontam para um consumo adicional de aproximadamente 1 bilhão de litros por ano, fortalecendo o mercado interno e reduzindo a dependência de combustíveis fósseis.

Isso reforça que o setor sucroenergético está cada vez mais conectado não apenas à produção agrícola, mas também às políticas energéticas e à segurança do abastecimento nacional.

Monitorar o clima é uma decisão de gestão

A análise histórica mostra que não existe uma relação simples entre El Niño, La Niña e produtividade. Os impactos variam conforme a intensidade do fenômeno, o momento em que ocorre durante o ciclo da cultura e as características de cada região produtora.

Ainda assim, compreender essas tendências permite reduzir incertezas e melhorar o planejamento das operações.

Para produtores, usinas e demais participantes da cadeia sucroenergética, acompanhar as condições climáticas significa antecipar riscos, ajustar estratégias e responder com maior rapidez às mudanças que ocorrem ao longo da safra.

Em um cenário de maior variabilidade climática, incorporar informações meteorológicas ao processo de tomada de decisão deixou de ser apenas uma vantagem competitiva. Tornou-se uma ferramenta essencial para aumentar a eficiência operacional e apoiar decisões mais seguras em toda a cadeia produtiva.

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