Artigo por Isadora Pierdoná
Na primeira semana de novembro de 2025, a região Sul do Brasil foi palco de um dos eventos meteorológicos mais intensos já registrados no país. A atuação de um ciclone extratropical deu origem a uma frente fria que provocou tempestades severas, algumas das quais se organizaram em supercélulas, sistemas convectivos de grande intensidade capazes de gerar ventos extremos e tornados. Um desses sistemas atingiu com maior severidade o município de Rio Bonito do Iguaçu (PR), causando graves danos à infraestrutura local e resultando em pelo menos seis mortes. Os registros apontam ventos que ultrapassaram 250km/h em alguns pontos da cidade, sendo o fenômeno classificado pelo Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar) como um tornado de categoria EF3, segundo a Escala Fujita Aprimorada, que varia de EF0 a EF5, conforme a intensidade dos ventos e os danos observados.

O tornado que atingiu o Paraná não foi um evento isolado. Entre as regiões brasileiras, o Sul do país reúne as condições mais favoráveis à formação de tornados. Os estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul registram com frequência a passagem de frentes frias e fortes contrastes de temperatura e umidade, especialmente na primavera e no início do verão. Nessa época do ano, o ar quente e úmido encontra o ar frio de origem polar, criando um ambiente favorável para tempestades organizadas e de grande intensidade.
Mesmo com os avanços da meteorologia nas últimas décadas, detectar fenômenos severos como tornados ainda é um grande desafio. Esses sistemas se formam de maneira muito rápida e localizada, durando poucos minutos e atingindo pequenas áreas, o que torna a previsão antecipada extremamente complexa. Diante disso, o papel dos meteorologistas é identificar as condições atmosféricas que aumentam o risco de tempestades severas, analisando variáveis como temperatura, umidade e o comportamento dos ventos em diferentes níveis da atmosfera.
Nesse ponto que entra o nowcasting, a abordagem da meteorologia voltada à previsão de curtíssimo prazo. Seu foco é acompanhar as mudanças na atmosfera em tempo real, nas próximas horas ou até minutos, permitindo identificar o desenvolvimento rápido de tempestades severas. Para isso, são utilizadas ferramentas integradas, que combinam as imagens de satélite, mostrando a formação e o deslocamento das nuvens, com os dados de radar meteorológico, capazes de revelar a estrutura interna das tempestades, como a intensidade da chuva, o movimento do ar e possíveis sinais de rotação. Essas informações são complementadas por medições contínuas de estações meteorológicas automáticas, que ajudam a confirmar o que está sendo observado nas imagens. Essa integração de dados é o que torna possível emitir alertas rápidos e precisos, permitindo que as equipes de monitoramento e a população ajam com antecedência diante de situações de risco.
No entanto, essas previsões dependem diretamente da quantidade de dados observados. No Brasil, apesar do trabalho fundamental de diversas instituições ainda existem vazios de medição, especialmente em áreas rurais e remotas. Sem medições locais, torna-se mais difícil compreender o comportamento da atmosfera em detalhe, e, consequentemente, emitir alertas precisos e necessários. Quanto mais densa e integrada for a rede de observação, maior será a capacidade de prever e responder rapidamente a situações de risco.
Os tornados, enchentes e ondas de calor que vêm se tornando mais frequentes no Brasil reforçam que não é possível prevenir o que não se conhece. Em um contexto de emergência climática global, medir e compreender o clima não é apenas uma questão científica, mas sim uma necessidade social.
E é justamente nesse ponto que a inteligência climática se torna essencial. A METOS® Brasil atua nesse elo entre observação e ação, oferecendo estações meteorológicas automáticas e plataformas de monitoramento que transformam dados ambientais em informação prática. Ao integrar medições em tempo real, essas soluções ajudam a detectar alterações atmosféricas precoces, fortalecer sistemas de alerta e reduzir os impactos de eventos severos sobre pessoas, lavouras e infraestruturas.
Em um país de dimensões continentais e realidades tão diversas, cada estação meteorológica representa um ponto de conhecimento, uma peça a mais no quebra-cabeça do nosso clima. Medir é o primeiro passo para entender, e entender é o primeiro passo para se adaptar.
Referências –
SIMEPAR – Município de Rio Bonito do Iguaçu foi atingido por um tornado, confirma Simepar,
Base Científica das Mudanças Climáticas: Contribuição do Grupo de Trabalho 1 ao Primeiro Relatório de Avaliação Nacional do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas https://repositorio.mcti.gov.br/handle/mctic/4306
Mudança do clima no Brasil: síntese atualizada e perspectivas para decisões estratégicas / Cíntia de Albuquerque Wanderley Coelho, et all — Brasília: Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, 2024. Chuvas extremas no Sul do Brasil têm aumentado desde 1950, aponta estudo
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